A “ajuda” e a “dó” na Sociedade Brasileira
A “ajuda” e a “dó” na Sociedade Brasileira
Os sentimentos de “ajuda” e “dó” no âmbito da política pública de Assistência Social são fenômenos históricos e permanentes, mesmo após a promulgação da Constituição Federal de 1988, que determina a Assistência Social como um direito social.
O artigo 203 da Carta Magna prevê que a Assistência Social será prestada a quem dela necessitar, independentemente de contribuição à Seguridade Social. Isso indica que um determinado grupo de pessoas deve ter acesso a essa política — um público majoritariamente excluído e marginalizado pelo modo de produção vigente.
Muitas vezes, essas pessoas são tratadas pelo viés da “ajuda” e da “dó”, relegadas a esse tipo de atendimento por serem vistas como “fracassadas” ou que não foram “salvas por Deus”. Ou seja, são sujeitos entregues à própria sorte por, supostamente, não terem se “esforçado” o suficiente para merecer um trabalho assalariado ou uma "pejotização" — quem sabe, por não terem nascido herdeiros para ver o capital entrar sem esforço, “parasitando” no mundo atual.
Trata-se, portanto, de refletirmos, enquanto profissionais e seres humanos: poderão essas pessoas, tratadas com pena, emancipar-se e buscar seu “lugar ao sol”? Será que esquecemos que existem direitos e políticas públicas que garantem um atendimento de qualidade?
Quando superaremos esse viés classista de tratar com pena os pobres, classificando-os como sujeitos sem sucesso que necessitam recorrer diariamente às “esmolas” do Estado burguês neoliberal? Quando compreenderemos que a “cultura de massa” impregna esse tipo de sentimento em nós e que necessitamos eliminá-lo de nossa consciência?
Sabemos que a tarefa é árdua; somos ensinados desde a mais tenra idade a acreditar nesses conceitos. Ouvimos que devemos ser os “mais espertos” ou que precisamos estudar para não ser um trabalhador braçal — considerado, de certa forma, igualmente fracassado por não ter alcançado um “emprego melhor”.
Até quando acreditaremos nesses ideais? Até quando a cultura burguesa nos dominará e enganará? Até quando o “ar de superioridade” tomará conta de nosso ser, proporcionando sentimentos tacanhos e soberbos? A mudança deve partir de nós, que devemos acreditar que a sociedade pode — e deve — ser diferente.
A Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), sancionada em 1993, estabelece a Assistência Social como direito do cidadão e dever do Estado. Ela é organizada para atender aos mínimos sociais postos pela sociabilidade burguesa, visando suprir as necessidades básicas de indivíduos que, segundo nossa “cultura”, fracassaram e são perdedores que necessitam de nossa pena ao serem atendidos pelas diversas políticas públicas.
Até que ponto o assistencialismo, o clientelismo e o "primeiro-damismo" são benéficos para os pobres e para a sociedade brasileira? Esses aspectos são capazes de proporcionar melhorias significativas? Certamente não; se fossem benéficos, já teríamos superado tais mazelas.
Em vez de sentirmos “dó e pena”, o que podemos fazer para que ocorram mudanças preponderantes em suas vidas? Acreditamos que apenas mitigar não resolve problemas tão profundos e complexos.
O pensamento conservador e reacionário que assola nosso país é incapaz de propor algo melhor para os brasileiros, como se evidencia ao longo da história. A questão é: como podemos modificar esse paradigma? A religião, por vezes, reforça essa visão, como em Deuteronômio 15:11: “nunca deixará de haver pobres na terra, portanto, abra a mão em favor do teu irmão, para os pobres e necessitados da terra”.
Como superar o senso comum que predomina em nós e que serve como estratégia para a classe dominante se manter no poder? Tais indagações são essenciais para visualizarmos possibilidades para nossa nação.
A cultura do “coitadismo”, da caridade, da filantropia e da subalternidade; a naturalização da pobreza, o darwinismo social e a repulsa ao excluído; o ideal de liberdade, igualdade e fraternidade que não sai do papel: quais estratégias devemos pensar para superar essa condição posta em nosso cotidiano?
Estudar seria o caminho? Organizar a informação e a consciência coletiva? Disseminar conhecimento crítico? Aproximar-se dos marginalizados? Precisamos pensar conjuntamente o que queremos, para onde vamos e qual caminho percorrer para superar os problemas históricos e, assim, construir um mundo novo.
REFERÊNCIAS
Bíblia Português. Deuteronômio 15:11. Disponível em: https://bibliaportugues.com/deuteronomy/15-11.htm. Acesso em 09 abril 2024.
BRASIL. Constituição Federal de 1988 (CF\1988). Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em 09 abril 2024.
BRASIL. Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS).
LEI
Nº 8.742, DE 7 DE DEZEMBRO DE 1993. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8742.htm.
Acesso em 09 abril 2024.

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